Foi uma pena, em meio a toda a comoção pública causada pelo massacre de Realengo, ter sido pouco divulgado acontecimento inédito ocorrido no sábado passado. A chefe da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro Marta Rocha, participou do mutirão de socorro aos presos que realizamos na Polinter de Neves.
Nesses dois anos de trabalho em Neves, sempre nos causou indignação o descaso das autoridades públicas. Homens lançados num caldeirão infernal, em crassa violação à Constituição Federal e Declaração Universal dos Direitos Humanos, e completa indiferença por parte do poder público.
Essa foi a principal razão de havermos programado uma manifestação para o sábado passado, a fim de exigirmos o fim das carceragens da Polícia Civil. Contudo, não pudemos realizá-la porque todas as nossas reivindicações foram atendidas pela secretaria de segurança pública: a Polícia Civil não recebe mais presos e até 2012 todas as carceragens serão extintas.
Por isso, em vez de fazermos o ato público, decidimos realizar na mesma data um mutirão de ajuda médica, jurídica, psicológica e odontológica aos presos. Com a diferença de que, dessa vez, tivemos a presença da autoridade mais importante da Polícia Civil. Ela foi muito gentil. Visitou as celas de todas as facções, conversou com os presos, insistiu para que largassem o crime e nos tratou de modo bastante amável, abrindo todas as portas para levarmos assistência aos presos enquanto as carceragens durarem. Agora, passaremos a trabalhar, mais ainda, em parceria com os nossos policiais.
Qual a importância de tudo isso?
1. Estamos levando dignidade aos presos e, quem sabe, ajudando a muitos a sair da vida do crime.
2. Provamos que não somos um movimento de oposição ao governo. Não temos problema em trabalhar lado a lado com uma das suas mais importantes instituições.
3. Conseguimos importante vitória que dá fim a uma antiga iniquidade. A ação política, no melhor sentido da palavra, que não se resume a obras de filantropia, traz benefícios mais duradouros e amplos para a vida daqueles a quem queremos ajudar. Foi bom levar pasta de dente para os presos, mas melhor ainda retirá-los da condição subumana em que se encontravam.
4. Descobrimos que há gente de bem no poder público, e a estes precisamos nos aliar para combater as estruturas da maldade. A experiência com a chefe da Polícia Civil mostra que isso é possível.
Estamos todos muito contentes com essa extraordinária conquista, que nos estimula a ir em frente, sonhando mais alto, usando a estratégia da misericórdia pelos que sofrem, pressão respeitosa sobre o Estado e diálogo com as autoridades públicas.
Antonio C. Costa
Rio de Paz
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