Assim que soube do que acontecera na escola pública Tasso da Silveira: 12 crianças mortas brutalmente por arma de fogo, senti que teria dias de muito trabalho pela frente. Não teria como não me envolver. Cancelei todos os compromissos do dia. Acompanhava o noticiário e pedia a Deus direção para saber o que fazer.
No final do dia decidi ir à escola. Pedi a ajuda de um amigo, e por volta das 23h, nos dirigíamos para uma loja de flores, a fim de comprarmos rosas e depositá-las no muro da escola onde houve a tragédia. Não havia rosa, mas pude encontrar belos vasos, cheios de uma espécie de flor cujo nome desconheço. As flores pareciam condizentes com o momento. Fui pagar. O dono me respondeu: "para esse propósito pode levá-las de graça". Saí de lá com 15 vasos de flores.
Liguei no caminho para um morador, conhecido de um amigo meu, pedindo ajuda. Ele me levou até o local. Solicitei às suas irmãs, que estavam presentes, que imprimissem os nomes das vítimas em folha de papel, para que cada vaso de flor levasse o nome de uma criança assassinada. Depositamos os 12 vasos ao longo do muro da escola. Não queria publicidade. Não levei nenhuma faixa. Não era momento para isso.
Repórteres me identificam. Pedem entrevista. Falo que não gostaria de falar naquele momento. Alguém insiste para que falasse, dizendo que minha vida estava identificada com aquela causa. Segue-se mais entrevista. A notícia de que o muro da escola estava sendo usado como local de manifestação se espalha. Gente no dia seguinte aparece de todo lado para depositar flores e prestar solidariedade no local. Era tudo o que queria. Sabia que isso iria acontecer. Era só alguém começar. O dia que cidadãos não expressarem publicamente sua tristeza pela desgraça tornada pública, pode-se ter certeza de que a alma da cidade estará morta.
Esperamos estar ajudando a criar uma cultura de respeito à vida no Brasil.
Antônio C. Costa
Presidente do Rio de Paz
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