
A sociedade civil não pode permanecer alheia às manifestações dos bombeiros. O momento é riquíssimo. Envolve, por um lado, uma reivindicação justa, e por outro, um exemplo que pode marcar positivamente a história do Brasil. Se estes protestos derem certo, transformações sociais históricas podem acontecer. Vamos aos motivos desta expectativa esperançosa:
1. O poder público pode estar aprendendo a lidar com seus cidadãos: procurando se reportar a eles de modo educado, buscando o diálogo ao mínimo sinal de insatisfação, evitando injustiças sociais que estão em seu poder debelar e temendo aumentar a comoção popular a favor dos espoliados dos seus direitos sociais. Espero que, a partir de agora, todo governante brasileiro tema o poder da rua.
2. A sociedade pode estar aprendendo a lidar com seus governantes: procurando se organizar para a luta pelos seus direitos, usando a criatividade, buscando parceria com os demais setores da população, interagindo com os membros do legislativo e enfrentando com perseverança os obstáculos do caminho. Espero que, a partir de agora, todo cidadão brasileiro reconheça o poder da rua.
Por tudo isso, devemos nos aproximar dos bombeiros. Eles não podem se perder no caminho. Sei que não são tolos e ingênuos, mas certamente estão lidando com algo para o qual a nossa geração de brasileiros não foi treinada. Nossa democracia é jovem e ainda pouco compreendida por nós cidadãos. Sendo assim, faço os seguintes apelos -que relacionam-se às ameaças ao sucesso de luta tão bela-, a todos os que estão à frente dessas justas manifestações:
1. Respeitem a pessoa do governador. Sei que há muito ressentimento. Justa decepção. Mas lembrem-se que ele foi democraticamente reeleito, portanto, sua autoridade foi legitimada pelo povo nas urnas. Não é bom para a democracia a falta de coragem, transparência e franqueza. Mas não é bom para a democracia o desrespeito, o desamor, o espírito de vingança. Não se constrói sociedades justas usando as armas do ódio. Lembrem-se que vocês podem ter ao lado pessoas que se aproximam do movimento movidas por mais ódio ao governador do que amor aos bombeiros.
2. Mantenham o compromisso com a ordem. Não permitam que o movimento seja visto como anárquico. Lembrem-se que os fins não justificam os meios. Ensinem para o país como homens bravos conseguem lutar pelos seus direitos de modo pacífico. Em fazendo assim, os protestos terão efeito didático para todos os que mantém seus olhos em vocês. Aprenderemos a lutar fazendo violência à injustiça e não aos homens.
3. Evitem ser usados politicamente. Político que quiser ajudá-los, que o faça no parlamento e não no palanque. Mostrem que o movimento nasce de uma demanda legítima e não de um projeto de tomada de poder.
Por acreditar na importância histórico-social desses protestos e na sinceridade de intenção dos bombeiros do Rio de Janeiro -com os quais pude estar esta semana até de madrugada programando a manifestação deste domingo-, que tomei a decisão de estar com vocês, apoiando-os no que for possível, certo de que vocês tanto atentarão para a importância social do que estão fazendo, como também haverão de manter o respeito às autoridades públicas, o compromisso com a ordem e a independência política.
Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz
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