Jamais pensei em minha vida fazer o que fiz ontem em Copacabana: pintar um bueiro, um bem público, sem autorização, como ato de protesto. O que poderia fazer? Crianças e velhinhas estão com medo de andar na rua. Pais sentem-se apreensivos pelos seus filhos. Um desespero. Não estou exagerando. Eles têm medo de meterem o pé em algo que mais se parece com um campo minado e, irem pelos ares. No local onde pintamos o bueiro de vermelho, dois turistas americanos sofreram acidente grave, com um deles, uma jovem de 28 anos, tendo 80% do seu corpo queimado.
Sendo assim, julgamos que seria bom haver alguma espécie de sinalização, a fim de que os cidadãos cariocas pudessem andar pelas ruas identificando os locais onde há essas espécies de minas terrestres.
É claro que foi também um ato de protesto. Alguém tem que ser responsabilizado pelo que está trazendo pânico aos moradores da cidade. Não podemos continuar vivendo num país em que pessoas perdem negócios porque vôo atrasou, carros capotam porque havia uma cratera na estrada, morro desmorona sobre a cabeça dos moradores porque jamais houve inspeção sobre as condições do terreno, e ninguém ser responsabilizado.
Sabe-se que, na Europa e nos Estados Unidos, em dia de neve, os próprios moradores tratam de removê-la de sua calçada, porque em havendo o caso de alguém se acidentar, será penalizado quem não limpou o caminho para o vizinho passar sem risco de escorregão. A cultura da impunidade e irresponsabilidade tem que acabar no Brasil.
Pagamos um preço social alto pelas privatizações. Brasileiros perderam emprego para que concessão de serviço público fosse passada para empresas privadas. Estávamos cansados da ineficiência do serviço público estatal. Ninguém nega. O processo de privatização, no entanto, não teve como objetivo fazer a população sofrer e sentir-se desamparada nas mãos de grandes empresas focadas em lucro e não na qualidade o seu serviço público.
Perdão pelo bueiros vermelhos. Somos da paz, do respeito às autoridades públicas e do zelo pela ordem pública. Mas algo tinha que ser feito para que pessoas pudessem andar com mais segurança pelas ruas da cidade. Até que ficou bonitinho. Certamente, o mais bonito ainda é o carioca aprender a lutar pelos seus direitos usando a malandragem da cultura do nossa cidade -a esperteza do bem-, por meio da qual usamos a criatividade para lutar pelos nossos direitos.
Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz
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