Ninguém sabe em que extensão houve queda de homicídio no Rio de Janeiro, e muitos menos os motivos pelos quais houve a redução. Isso precisa ser afirmado pelas seguintes razões: não se pode brincar com o direito à vida, é imprudente celebrar vitória incerta e é irracional tentar persuadir pessoas com base no que é carente de evidência.
Com base em qual trabalho de pesquisa afirmamos conhecer a causa da redução de assassinatos? Como ousamos fazer afirmações categóricas, baseadas em intuição, sobre campo de conhecimento que exige demonstração estatística? Atribuir, sem o mínimo fundamento, resposta para problemas sérios, nos conduzirá a políticas públicas que não são alicerçadas em fatos, mas em chute. Agimos de modo inconseqüente quando, com base no infundado, propomos o inexeqüível, perpetuando tragédia social que já marcou definitivamente a vida da nossa geração. Só nesta atual gestão da segurança pública, sem mencionar as anteriores, cujos resultados foram absolutamente trágicos, já chegamos à marca de 30 000 mortes violentas.
Os números de homicídio continuam assombrosos. Entre 2007 e abril de 2011 a estatística oficial de mortes violentas aponta para os seguintes e ainda impressionantes números:
- Homicídio doloso: 6133 (2007), 5701 (2008), 5794 (2009), 4768 (2010) e 1571 (2011). Total: 23 967.
- Lesão corporal seguida de morte: 44 (2007), 44 (2008), 44 (2009), 50 (2010) e 20 (2011). Total: 202.
- Latrocínio (roubo seguido de morte): 192 (2007), 234 (2008), 170 (2009), 155 (2010) e 31 (2011). Total: 782
- Auto de resistência (morte em confronto com a polícia): 1330 (2007), 1134 (2008), 1048 (2008), 764 (2010) e 237 (2011). Total: 4 513
- Policiais militares mortos em serviço: 23 (2007), 22 (2008), 24 (2009), 15 (2010) e - (2011). Total: 84.
- Policiais civis mortos em serviço: 9 (2007), 4 (2008), 7 (2009), 5 (2010) e – (2011). Total: 25.
- Total de mortes violentas: 29 573.
Ocorre que isso não é tudo. Infelizmente, uma vez que estamos falando de famílias arrasadas, pais enlutados, órfãos, viúvas. Existe mais gente morta. No período supramencionado -22 533 pessoas desapareceram no Estado do Rio de Janeiro-, segundo estatística do Instituto de Segurança Pública, sem contar as que sumiram e não constam no registro de nenhuma delegacia. É certo, absolutamente certo, que muitos dos desaparecidos estão mortos.
Todos os que se relacionam com policiais, pesquisadores, lideranças comunitárias, repórteres, moradores de favela e presos sabem que pessoas estão sendo incineradas vivas, lançadas na baía de Guanabara, devoradas por animais famintos, enterradas em cemitérios clandestinos. Relatos dessa natureza chegam dos mais diferentes pontos da região metropolitana do Rio.
Em suma, enquanto não houver pesquisa ampla e séria sobre o paradeiro de pessoas desaparecidas, jamais saberemos quantas vidas humanas realmente foram preservadas, e quantas foram interrompidas pelo crime.
Onde está Juan?
Antônio Carlos Costa
Presidente do Rio de Paz
www.riodepaz.org.br
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